Ybáca retornava à sua casa por volta das 23h, quando houve o apagão. Ela achou maravilhoso o fato de subir as escadarias em completa escuridão, sentiu-se infinitamente nua e excitada a cada degrau que percorria. Apenas somos senhores e senhoras de nós mesmos frente a escuridão que nos cerca, embora nós estranhamente tenhamos hasteado pseudo-estrelas em postes. O céu do universo era profundo como o ventre metafísico da criação, não havia nenhum deus lá, só as trevas e a sensação. Ybáca subiu vagarosamente, como mulher que sentencia o pênis a adentrar em sua vagina - porta de entrada e saída triunfal do profano nascimento - vida. Suas pernas tremiam em êxtase, pois ela não podia ver onde pisava, tal qual fazem os incautos moderadores da vida, que se esforçam continuamente em explicá-la e doutriná-la para uma "força", uma "superação", quando de fato a força e a superação é a própria vida. Quando Ybáca chegou à sua casa, abriu a porta e foi tomar banho, estava toda suada e gozada da escuridão. Não houve eletricidade durante cinco horas, e foram as cinco horas mais bem dormidas de Ybáca: pós coito consigo.
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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Ybáca e o Apagão
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preambulo de ybaca
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Ego
Eu sou filha de mim.
Criada pela revolta,
pela anarquia,
pelo coração do mundo.
Eu sou filha de mim:
meu ventre a mim pertence,
seus frutos ao mundo pertencerão.
Eu sou filha de mim,
do meu sangue, do meu osso,
da minha carne e de meus pensamentos.
Nunca conheci ninguém que se pertencesse tanto quanto eu me pertenço.
Meus pais me fizeram, mas, eu sou de mim desde que nasci.
Eu me possuo: -- Eu... sou filha de mim.
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algum lirismo
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
The Hours
"You live with the threat, you tell me you live with the threat of my extinction. Leonard, I live with it too."
(Virginia Woolf - The Hours)
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Coumata Pessoal
domingo, 5 de dezembro de 2010
Excepcionalíssima Missiva
Recife, 05 de Dezembro de 2010.
Sempre tive esta idade, muito embora eu, vez ou outra, tenha recordações de outros tempos.
Aprendi a forjar palavras muito antes dos cinco anos, e nesta época eu nem sabia ler o que eu mesma escrevia; pelo menos não ortodoxamente -- eu escrevia "abbacba" e imaginava ter escrito "há um céu pra todos."
Minha maior decepção fora com as nuvens: nunca pude tocá-las.
Mas eu secretamente ainda as adoro, um primeiro amor nunca é esquecido facilmente, apesar de.
Tempo!
Eu nunca soube também o que era o tempo e porque as pessoas viviam perdendo-o ou me mandando parar de perder uma coisa que nunca tive. O tempo para mim sempre foi absoluto mistério, e por isso eu sempre estava a espreita e me distraía de várias coisas, procurando por ele. Eu sempre achei que devia procurá-lo, mas, depois percebi que o tempo não é um velho caduco e que não precisa que lhe procurem, ele sempre aparece, o tempo é de ninguém.
Os velhos sim, precisam que nós os procuremos e lhes ofereçamos cuidados: eles já acharam o tempo deles.
Eu gostava de inventar nomes e sombras quando andava de carro. Gostava de ver as sombras voarem e fazer tudo aquilo que eu via nos desenhos animados, coisas que eu só puder fazer as minhas sombras fazerem. Ainda hoje, no ônibus, gosto de ficar em silêncio e ver as minhas sombras e suas piruetas: elas desviam de tiros que jamais eu conseguiria desviar, elas alcançam o alto dos edifícios onde eu jamais alcançaria, elas tocam as nuvens que eu nunca toquei. Minhas sombras não me assustam e eu não as assusto.
Tive que usar óculos só depois que eu os queria, depois que passei a usá-los voltei a querê-los. Agora escrevo palavra por palavra, certinhas e em seu lugar, mas, sempre me recordo do meu primeiro caderno com uma história ilegível, pois era agramatical. Hoje sei sintaxe, semântica e o escambal, porém, minha história mais original era a que só eu podia entender: tinha "aaddto", "etuvrt" e "abbacba", que não adiantava desmisturá-las, re-ordená-las ou embaralha-las novamente, nunca achariam palavra semelhante em nenhuma língua: naquela época infante eu tinha inventado a minha própria língua, com sua própria sintaxe e semântica: cada palavra podia significar o que quisesse, podia se inverter se quisesse e podia mudar de sentido sempre. Era assim que a minha escrita era livre e solta, podia escrever qualquer coisa e vir a ler a qualquer momento que a história podia mudar: não havia diferença entre o que havia sido lido ou o que eu ainda ia ler -- as palavras estavam lá pra contar infinitas histórias, de trás pra frente, de frente para trás.
E foi assim que eu cresci e alcancei a idade que eu já tinha. Mesmo que eu olhe para meu passado, sinto que ele poderia mudar tanto quanto meu presente ou futuro. O tempo continua de ninguém. Eu nunca mais procurei o tempo.
Sei que vou reconhecê-lo assim que encontrá-lo.
Tudo de bom para mim, vejo-te sempre n'eu.
Beijos.
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capítulos bruscos,
Coumata Pessoal
sábado, 4 de dezembro de 2010
Para sempre, Yu Yu Hakusho!
A música fala por si só:
"O corre corre da cidade grande,
Tanta gente passa
Estou só
O vento sopra pelo campo,
E trás uma lembrança sua
Estou só (...)"
Estou só
O vento sopra pelo campo,
E trás uma lembrança sua
Estou só (...)"
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Orações Complexas
Toda reza complexa
deixa deus embaralhado:
Ou se fala simplesmente com ele,
ou é melhor ficar calado.
deixa deus embaralhado:
Ou se fala simplesmente com ele,
ou é melhor ficar calado.
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sábado, 27 de novembro de 2010
Sal da Terra
Perseguir um sonho, talvez, seja torná-lo um pesadelo. Viver uma vida de sombras é necessário, só conhecendo o pecado pra saber reconhecer o que é bom. Ausente de dualidades e maniqueísmo, tentar viver uma vida apenas de razão é uma escolha inóspita. Há algo de milagroso na vida e na morte que nos concede dor e sofrimento e também outras coisas boas, das quais, na maioria das vezes, duvidamos. A filosofia explica como vivemos, como poderíamos viver e como poderíamos ter vivido. Porém, ela não explica porque duas pessoas estranhas se tornam íntimas e depois de íntimas, tornam-se estranhas de novo. Filosofia não é vida. Nem morte. Ninguém precisa saber andar para avançar em seu próprio caminho: além do bem e do mal, além de todo tempo e de toda impressão que se tem do tempo, tem uma coisa pequena, mesquinha, medíocre e fugaz que se chama amor. Amor foi uma criação humana que até os deuses tem inveja. Amor rima com rancor, mas, é algo que todo sofrimento não suporta: o amor é o sofrimento do sofrimento. E há tanta força nesse sentimento, que mulheres e homens tem o sentido além de suas vidas e mortes. Não há como dizer se em algum dia do passado ou do futuro - ou mesmo do presente - uma vez que tenha sido, que o amor tenha vencido a morte, ou o tempo, a distância, o mal, o bem, o descaso, a descrença, a fé, os deuses... mas, dá pra saber com certeza absoluta que, também nunca - nunca - em nenhum momento, que o amor tenha perdido o que quer que seja.
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Geni
Aquela vadia canta mal, sua voz soa como uma gralha engasgada. Aquela vadia se veste feito puta, exibindo seu corpo que quer dar-se pra qualquer um, decotes e pouco pano. Ela não se dá valor, tem um vocabulário podre, cheio de palavrões e de pornografias. Ela bebe, fuma, fode, nessa ordem ou não. Ela degenera, ela agride aos olhos mais sensíveis, aos puritanos excitados, aos irmãozinhos com seus desejos mais sodômicos. Bunda, peitos, boca, buceta: ela fala, ela grita, ela geme, ela se depila, vai pra praia de fio-dental, ela não tem vergonha nenhuma, de nada, de ninguém. Ela é gostosa e bonita, o demônio da tesão, a libido encarnada. Ela dança até o chão, deixando tudo e o mundo pra trás, porque tudo está aquém dela quando ela rebola na micareta da classe média moralista que a deseja e a apedreja loucamente. Ela é perdida e é a própria perdição. Ela é incestuosa. Que nojo.
O nome dela é Geni, atira pedra na Geni, que ela é boa de cuspir.
A todos os filhos de suas putas que te chamam de puta, vez ou outra.
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palavras inóspitas
sábado, 13 de novembro de 2010
banheiro feminino
***
Começa na fila, aqueles apertos - o vestido, a bexiga, a sandália, o cabelo -, segura a bolsa, abre, enquanto não mija, retoca o batom, faz pose no espelho, pensa: "quero logo fazer xixi", sorri com um bocão, a porta abre - "sou a próxima" - entra, afrouxa o vestido e a calcinha, senta e relaxa. Mexe os pés dentro da sandália, solta um pouco as tiras, até o atrito do material sintético e sua pele natural cessar. 3, 2, 1 - 1 minuto e meio sentada, na paz silenciosa entre ela, a privada, as paredes e o papel higiênico. Respira, arruma tudo de novo: calcinha, vestido, sandália. Abre a porta e sai, lava as mãos, seca-as, arruma o cabelo, enfeita os cílios como rímel, sorri e passa blush nas bochechas, apruma o lápis-de-olho preto e depois esfuma, dá o toque final com o perfume. Pronto.----
"Por que você demorou tanto?" - diz ele, com cara de cínico deslumbrado.
"Ah, foi só a fila..." - responde ela, com cara linda.
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sociologia intuitiva
domingo, 7 de novembro de 2010
certeza
quem busca um amor, quer ser amado.
quem busca o amor, quer amar.
não conheço nenhum outra utilidade para a dor,
além da que ela tem: doer.
quem não tem no peito um coração
jamais vai entender.
quem busca o amor, quer amar.
não conheço nenhum outra utilidade para a dor,
além da que ela tem: doer.
quem não tem no peito um coração
jamais vai entender.
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sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Para: frasear.
é um homem sozinho
com singela compainha de uma solitude
como solidão faceira
que chega, revoluciona e nos deixa só.
como enfretar o dia-a-dia, só?
só achar que se é forte por solidão,
então, você precisa de alguém que te queira : só.
Aí você quer tê-lo, talvez, e não mais só.
Junto. Conjunto...
Mais aí já é outro poema.
com singela compainha de uma solitude
como solidão faceira
que chega, revoluciona e nos deixa só.
como enfretar o dia-a-dia, só?
só achar que se é forte por solidão,
então, você precisa de alguém que te queira : só.
Aí você quer tê-lo, talvez, e não mais só.
Junto. Conjunto...
Mais aí já é outro poema.
domingo, 3 de outubro de 2010
O caderno de Joana
Esse texto, eu sinto, é um pouco sobre mim...
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quinta-feira, 30 de setembro de 2010
I'm like a bird, I'll only fly away
I don't know where my soul is, I don't know where my home is
(and baby, all I need for you to know is)
I'm like a bird, I'll only fly away
I don't know where my soul is, I don't know where my home is
(All I need for you to know is)
I don't know where my soul is, I don't know where my home is
(and baby, all I need for you to know is)
I'm like a bird, I'll only fly away
I don't know where my soul is, I don't know where my home is
(All I need for you to know is)
[Nelly Furtado, "I'm like a bird"]
sábado, 4 de setembro de 2010
Não fale de amor!
Querelas, parlengas poéticas!
Não me venha poemizar sobre amor
Não o admito a ninguém.
Adjetivos, hipérboles, extremunções!
Ao amor tudo é pouco, inalcançável,
imune à lágrimas e dragões.
Vergonha, desespero, sofrimento:
isto vem da racionalização do amor.
O amor é irracional, anti-razão:
porque se existem motivos demais para odiar;
para amar não se pode haver nenhum.
Não me venha poemizar sobre amor
Não o admito a ninguém.
Adjetivos, hipérboles, extremunções!
Ao amor tudo é pouco, inalcançável,
imune à lágrimas e dragões.
Vergonha, desespero, sofrimento:
isto vem da racionalização do amor.
O amor é irracional, anti-razão:
porque se existem motivos demais para odiar;
para amar não se pode haver nenhum.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
A Lua vem da Ásia
"E aqui lhe rendo esta homenagem tardia mas veemente, no pleno silêncio deste quarto frio e povoado de trevas, tendo por quadro-negro esta parede onde a custo faço deslizar a ponta do meu lápis, já que a lua hoje não veio da Ásia e não consigo sequer enxergar o meu triste corpo ajoelhado na cama."
[Campos de Carvalho, A Lua vem da Ásia]
[Campos de Carvalho, A Lua vem da Ásia]
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contemporâneos
sábado, 31 de julho de 2010
"Chorar o leite derramado não é tão inútil quanto se diz, é de alguma maneira instrutivo porque nos mostra a verdadeira dimensão da frivolidade de certos procedimentos humanos, porquanto se o leite se derramou, derramado está e só há que limpá-lo, (...)"
[José Saramago - CAIM - pg. 40]
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Saramago
terça-feira, 20 de julho de 2010
Aos Amigos e Aos Inimigos
"Detesto quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer a verdadeira companhia."
[Nietzsche]
E é isso: .
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segunda-feira, 12 de julho de 2010
Arrogância Clichê
"Você não pode julgar ninguém. Quando você aponta um dedo pra alguém, aponta três para si mesmo!", Dizem os tolos, os amigos dos tolos e os tolos amigos dos tolos. Então, o apontador pensa: "É verdade! Não posso julgar ninguém!" Assim também os tolos transformam todos os julgadores em tolos. Eu não sou tola. Quando aponto para alguém, começo com apenas um dedo. Raras pessoas são dignas do segundo e nunca conheci uma pessoa que tivesse cacife para um terceiro dedo meu apontado. "Eu", meu caros leitores e leitoras, é quem aguenta os meus três dedos. Não sinto pena de quem deveria saber se defender, mas, sinto compaixão por aqueles que realmente não sabem. Quando escrevo, quando falo - apontando - não o faço com formigas, nunca. Faço contra ratos, gabirus, talvez. Meu dedo irá na sua parte mais resistente. Preste atenção: e acima de tudo, não me confunda.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
*
"Além das estrelas, depois da Lua e do Sol, após todos os planetas, no fundo do espaço sideral, encontrar-se-a o infinito caos. Há quem diga que é inimaginável e intangível chegar a tais recônditos. Quem isso afirmar por certo esqueceu do coração do ser humano e de sua imaginação. É que quando há um limite, é que temos a possibilidade de transgredi-lo. É que quando ultrapassamos a náusea, retomamos nosso pequeno lugar de céu: infinito. A canção do Caos é silenciosa. Sua dança é veloz, precisa, cheia de cores decadentes."
***
A menina avistou uma gaivota negra. Ela nunca tinha visto uma gaivota daquela cor. Segui-la era o que ela tinha que fazer. Ela fez, e achou a ponte para a casa de um deus do céu, com nuvens, estrelas e silêncio.
[créditos da imagem: Nene]
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preambulo de ybaca
sábado, 12 de junho de 2010
A rotina da criatividade
Tão pouco!
Já presenciara tudo o que havia de ver.
Depressa!
Já não se importava com o passar do tempo, Cronos era seu amigo.
Ia gesticulando vagarosamente, livrando-se das moscas.
Caía a noite, as estrelas estavam impávidas como sempre.
As murissocas sussurravam alguma coisa degustando o sangue alheio.
Ah, eram tantas!
Sem jamais contá-las, sem jamais perdê-las, sem jamais.
Escolheu um peso.
Escolheu uma medida.
Escolheu uma altura.
Tudo qualquer.
Deitou-se.
Fechou os olhos.
Cruzou os braços.
Partiu.
Já presenciara tudo o que havia de ver.
Depressa!
Já não se importava com o passar do tempo, Cronos era seu amigo.
Ia gesticulando vagarosamente, livrando-se das moscas.
Caía a noite, as estrelas estavam impávidas como sempre.
As murissocas sussurravam alguma coisa degustando o sangue alheio.
Ah, eram tantas!
Sem jamais contá-las, sem jamais perdê-las, sem jamais.
Escolheu um peso.
Escolheu uma medida.
Escolheu uma altura.
Tudo qualquer.
Deitou-se.
Fechou os olhos.
Cruzou os braços.
Partiu.
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