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quinta-feira, 26 de maio de 2011

Eu sabia

eu sabia que estrela nascia sem a gente ver,
sabia que o beijo também nascia sem a gente ver
e sabia que a poesia nascia sem a gente ver.

eu sabia que a escuridão nascia sem a gente ver,
mas que no fim quando eu te encontro sentado na cama
do quarto, de olhos fechado sem me ver,
é que no silencio com o amor que tinha nascido,
sem a gente ver, porque o amor também é cego.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Do amor

O amor não existe: não é uma mentira ou uma verdade, ele simplesmente não existe.
Não adianta procurá-lo em si ou nos outros, não adianta procurá-lo nas coisas ou em deus(es).
Não há amor: o amor é.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ybáca e o Apagão

Ybáca retornava à sua casa por volta das 23h, quando houve o apagão. Ela achou maravilhoso o fato de subir as escadarias em completa escuridão, sentiu-se infinitamente nua e excitada a cada degrau que percorria. Apenas somos senhores e senhoras de nós mesmos frente a escuridão que nos cerca, embora nós estranhamente tenhamos hasteado pseudo-estrelas em postes. O céu do universo era profundo como o ventre metafísico da criação, não havia nenhum deus lá, só as trevas e a sensação. Ybáca subiu vagarosamente, como mulher que sentencia o pênis a adentrar em sua vagina - porta de entrada e saída triunfal do profano nascimento - vida. Suas pernas tremiam em êxtase, pois ela não podia ver onde pisava, tal qual fazem os incautos moderadores da vida, que se esforçam continuamente em explicá-la e doutriná-la para uma "força", uma "superação", quando de fato a força e a superação é a própria vida. Quando Ybáca chegou à sua casa, abriu a porta e foi tomar banho, estava toda suada e gozada da escuridão. Não houve eletricidade durante cinco horas, e foram as cinco horas mais bem dormidas de Ybáca: pós coito consigo.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Foi assim que começou, da mesma maneira que terminou: Uma vereda difícil.
Não foi amor, foi amor. E quem saberia ou jamais saberá?
Aquela garota tem lágrimas do lado de fora de seus olhos, seus desesperos são vivos.
Aquele garoto tem lágrimas do lado de dentro de seus olhos, seus desesperos são inventados.
Ninguém vai julgá-los e talvez sofram.
Mas, quem sabe as partes são maiores que o todo e eles dois fiquem bem?

Ah!, aquelas estrelas de Mário que se acenderam no universo com medo da escuridão...

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Medida do Beijo

Só aquilo que é importante é retido pelo coração, todo resto desimportante fica na mente: a cabeça é o playground das ideias, as dita-cujas sem razão. A senda do amor é a mais difícil de se percorrer, pois, é um caminho que dá voltas e que exige ao ambulante que o percorra de tudo aberto: cabeça, ombros, joelhos e pés.
A via crucis do amador - aquele que ama, ainda que não-profissional no que faz - é o andar descalço no escuro:
- porque fechou os olhos para beijar.

sábado, 27 de novembro de 2010

Sal da Terra

Perseguir um sonho, talvez, seja torná-lo um pesadelo. Viver uma vida de sombras é necessário, só conhecendo o pecado pra saber reconhecer o que é bom. Ausente de dualidades e maniqueísmo, tentar viver uma vida apenas de razão é uma escolha inóspita. Há algo de milagroso na vida e na morte que nos concede dor e sofrimento e também outras coisas boas, das quais, na maioria das vezes, duvidamos. A filosofia explica como vivemos, como poderíamos viver e como poderíamos ter vivido. Porém, ela não explica porque duas pessoas estranhas se tornam íntimas e depois de íntimas, tornam-se estranhas de novo. Filosofia não é vida. Nem morte. Ninguém precisa saber andar para avançar em seu próprio caminho: além do bem e do mal, além de todo tempo e de toda impressão que se tem do tempo, tem uma coisa pequena, mesquinha, medíocre e fugaz que se chama amor. Amor foi uma criação humana que até os deuses tem inveja. Amor rima com rancor, mas, é algo que todo sofrimento não suporta: o amor é o sofrimento do sofrimento. E há tanta força nesse sentimento, que mulheres e homens tem o sentido além de suas vidas e mortes. Não há como dizer se em algum dia do passado ou do futuro - ou mesmo do presente - uma vez que tenha sido, que o amor tenha vencido a morte, ou o tempo, a distância, o mal, o bem, o descaso, a descrença, a fé, os deuses... mas, dá pra saber com certeza absoluta que, também nunca - nunca - em nenhum momento, que o amor tenha perdido o que quer que seja.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Geni

Aquela vadia canta mal, sua voz soa como uma gralha engasgada. Aquela vadia se veste feito puta, exibindo seu corpo que quer dar-se pra qualquer um, decotes e pouco pano. Ela não se dá valor, tem um vocabulário podre, cheio de palavrões e de pornografias. Ela bebe, fuma, fode, nessa ordem ou não. Ela degenera, ela agride aos olhos mais sensíveis, aos puritanos excitados, aos irmãozinhos com seus desejos mais sodômicos. Bunda, peitos, boca, buceta: ela fala, ela grita, ela geme, ela se depila, vai pra praia de fio-dental, ela não tem vergonha nenhuma, de nada, de ninguém. Ela é gostosa e bonita, o demônio da tesão, a libido encarnada. Ela dança até o chão, deixando tudo e o mundo pra trás, porque tudo está aquém dela quando ela rebola na micareta da classe média moralista que a deseja e a apedreja loucamente. Ela é perdida e é a própria perdição. Ela é incestuosa. Que nojo.

O nome dela é Geni, atira pedra na Geni, que ela é boa de cuspir.

A todos os filhos de suas putas que te chamam de puta, vez ou outra.


sábado, 13 de novembro de 2010

banheiro feminino

***
Começa na fila, aqueles apertos - o vestido, a bexiga, a sandália, o cabelo -, segura a bolsa, abre, enquanto não mija, retoca o batom, faz pose no espelho, pensa: "quero logo fazer xixi", sorri com um bocão, a porta abre - "sou a próxima" - entra, afrouxa o vestido e a calcinha, senta e relaxa. Mexe os pés dentro da sandália, solta um pouco as tiras, até o atrito do material sintético e sua pele natural cessar. 3, 2, 1 - 1 minuto e meio sentada, na paz silenciosa entre ela, a privada, as paredes e o papel higiênico. Respira, arruma tudo de novo: calcinha, vestido, sandália. Abre a porta e sai, lava as mãos, seca-as, arruma o cabelo, enfeita os cílios como rímel, sorri e passa blush nas bochechas, apruma o lápis-de-olho preto e depois esfuma, dá o toque final com o perfume. Pronto.

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"Por que você demorou tanto?" - diz ele, com cara de cínico deslumbrado.
"Ah, foi só a fila..." - responde ela, com cara linda.


domingo, 7 de novembro de 2010

certeza

quem busca um amor, quer ser amado.
quem busca o amor, quer amar.
não conheço nenhum outra utilidade para a dor,
além da que ela tem: doer.
quem não tem no peito um coração
jamais vai entender.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para: frasear.

é um homem sozinho

com singela compainha de uma solitude
como solidão faceira
que chega, revoluciona e nos deixa só.


como enfretar o dia-a-dia, só?
só achar que se é forte por solidão,
então, você precisa de alguém que te queira : só.

Aí você quer tê-lo, talvez, e não mais só.
Junto. Conjunto...
Mais aí já é outro poema.

Crônica da agonia de um afã

Mudar o mundo, casar, comprar o pão, trabalhar, viver, ir à praia, viver; responsabilidade, morr e viv: (s)er.
Um ser humano acorda, acha que está bom. Ele toma café, poderia ter sido melhor.
Sai na rua, pega o ônibus que, milagrosamente não está lotado: pois, ele está saindo do centro da cidade para o subúrbio.
Ele reflete, mais uma vez. Ele é rico, mas, tenta ser uma coisa melhor.
Esse ser humano trabalha numa ONG, se vê bem lá. Se é lá.
Então, ele fica alegre lá, junto dos pobres, dos miseráveis, dos desdentados, dos piolhentos, dos imundos, "homens carangueijos", homens carangueijos.
Ele é capaz de amá-los. Não ama a modelo da revista.
Ele também não é Jesus, está com a Maria, mas também com a Madalena.
Não há bom sem defeito.
Está de noite, um momento de solidão:


Terá que dormir em um apartamento caro, com a tv de lcd porque... dinheiro é um grilhão.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

I'm like a bird, I'll only fly away
I don't know where my soul is, I don't know where my home is
(and baby, all I need for you to know is)
I'm like a bird, I'll only fly away
I don't know where my soul is, I don't know where my home is
(All I need for you to know is)


[Nelly Furtado, "I'm like a bird"]

sábado, 4 de setembro de 2010

Não fale de amor!

Querelas, parlengas poéticas!
Não me venha poemizar sobre amor
Não o admito a ninguém.


Adjetivos, hipérboles, extremunções!
Ao amor tudo é pouco, inalcançável,
imune à lágrimas e dragões.


Vergonha, desespero, sofrimento:
isto vem da racionalização do amor.
O amor é irracional, anti-razão:


porque se existem motivos demais para odiar;
para amar não se pode haver nenhum.