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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

cinzas

deixe a liberdade se encarregar das pessoas,
que a mudança sempre virá:
algo se vai,
alguma coisa fica e
ninguém nunca entende nada.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

existir não é ser

cada palavra que forma sentido de frase ou que não, substantivo substância, verbo ressoante, adjetivo restritivo, pronome substituto, preposição gostosa, cospe na cara da proposição escatológica do existir.
cada poema, verso, retrocesso, cabaço, balaço, terremoto, furacão, nascimento, encerramento, espetáculo, musical, explosão, assassinato, incêndio, pedinte-doante, etecetera e tal, é uma coisa que nem existe.
não há, mas é.
é e não existe, existir não é.
existir é apenas existir.
existir não é.
ser é.
ser pode existir ou não.
saci existe?
não deixa de ser saci.
deus existe?
não deixa de ser deus.
amor existe?
não. mas é amor.

ser é imprescindível, inadiável, impostergável, impreterível, horrível, insensato, impensado, inescusável, imprestável, inútil, absoluto.

ser não precisa de acreditar.
ser não precisa de nada: basta ser.

tenho medo do que existe e não é: como pode ser?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Eu sabia

eu sabia que estrela nascia sem a gente ver,
sabia que o beijo também nascia sem a gente ver
e sabia que a poesia nascia sem a gente ver.

eu sabia que a escuridão nascia sem a gente ver,
mas que no fim quando eu te encontro sentado na cama
do quarto, de olhos fechado sem me ver,
é que no silencio com o amor que tinha nascido,
sem a gente ver, porque o amor também é cego.

As grandes aspirações medíocres

Escrevera o sumo da sabedoria vulgar,
lexemas banhados pela mais pura moral,
elevados ao mais alto patamar da filosofia universal,
com o sangue das prostitutas que deflorara em pensamento.

Desenhara o mapa do conhecimento secular,
com ferramentas nazistas de tortura,
delineara toda boa educação,
com todas a tintas da asneira.

Vivera em mais estúpido subalterno sentimento de vazio,
contrariando todas as leis da natureza violenta,
ordenando a cada um de seu covil,
que dançasse em agonia parasitária.

Fora um filósofo do horror,
descrevera como ninguém a própria estupidez,
negara a si o direito da vida,
justamente porque tinha uma náusea de morrer:
era um pobre ser assustado demais com a própria insignificância,
coisa que qualquer criança,
já passara a esquecer...

sexta-feira, 13 de maio de 2011

De mim

objetivamente, não sei quem sou.
subjetivamente, há todo um mistério curioso.
pinga uma palavra aqui, escorre outra por a cá,
se é de poesia, não precisa umidecer.
deixe que queimem,
que rasguem e que atropelem.
deixe que berrem: amanhã o dia já veio.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

casca de ferida

E a palma da mão sofrida bate, bate a alegria do que rege e vira pó,
Deus tão perdido nessas matas, ouve só o canto daquele rouxinol,
mil olhos para formar uma só lágrima, um só pranto que formou o mar,
o céu infinito sobre as águas, a águas, infinitas, tardam não chegar.

suspirou, sem querer dançar a vida,
a metamorfose morreu,
me dá a tua mão na esquina,
dente de criança cresceu.

um mistério do meio dia, sangrado pelo chão,
couro, unhas, cabelo.
e uma casca de ferida a coçar...

sexta-feira, 15 de abril de 2011

sibila assobiando

Sibila acordou dentro do sonho, como quem quisera nunca dormir: jamais ela pensara em adormecer. Todavia, ela não encontrava motivos para pesadelos, era uma pessoa que não se permitia jamais indispor-se consigo mesma.
Dentro do onírico e tênue realidade que se apresentava, ela dispunha de tesouras críticas para cortar os véus que lhe sucediam na evitância de pós-promulgar uma afirmação quase inventada: o mundo não era apenas uma vontade de representação, ele forçava um diálogo mental, espiritual e ausente de tudo e de nada. Sibila desconfiava que ela mesma fazia parte de alguma coisa, que ela era um pedaço que tinha vontade de potência de ser e ser vontade de potência de.
Caracterizava o mundo de mistério toda vez que rebentava um segredo, as coisas só tinham sentido porque ela os dava, porque ela os criava, apesar de nem sempre perceber e se perder - quem sabe? - nessa criação.
Mas esta coisa de perder-se não é para todos, só quem conhece bem o labirinto de si é capaz de entender o que se dá com Sibila quando ela ouve uma música.
Essa história de abismo, de superfície e de solidão saiu da idéia de ter medo da vida, tal coisa irracional não se sucede aos demais animais da natureza, só ao ser humano, e essa coisa meio que Sibila não entende o "porque": Sibila ama a vida e a morte como se fosse morrer de tanto viver.
Ah, e Sibila vive os próprios sonhos porque a idéia que veio da coragem dela foi que ela pode até perder tempo, mas, só se perde a vida uma vez e há quem diga que ninguém nunca encontre-a de novo - Sibila vive intensamente.